À procura de uma receita para a infelicidade

Num dia de sol, especialmente brilhante, a Maria saiu de casa convicta da sua decisão. Foi ao psicólogo. Entrou, sentou-se e disse: «Olá, Doutor! Estou cansada da minha felicidade! Tenho um excelente trabalho, com um ambiente mesmo incrível! Tenho uma família onde reina a harmonia e a alegria, amigos e amigas do melhor que há, entre todas as outras boas energias que recebo das pessoas dos outros contextos da minha vida. Comigo própria? Estou ótima! Gosto imenso de mim! Está tudo muito bem! O que me traz cá? Neste momento, o meu maior desejo é encontrar pedaços de infelicidade para a minha vida! É isso mesmo! De certeza que está habituado a lidar com pessoas que se sentem infelizes! Vai encontrar os ingredientes perfeitos para mim! Escusa de me fazer perguntas! Estou aqui porque quero respostas e sei que o Dr. tem o que procuro!».


Psicólogo: «Olá, Maria! Esteja à vontade… estou a escutá-la…»


Maria: «Doutor, tenho uma única questão. Será que pode prescrever-me ingredientes para ser infeliz?»


Psicólogo: «Bem, Maria, permita-me dizer desta forma… de facto, confirmando o que disse, trabalho com várias pessoas que percecionam e sentem infelicidade diariamente. Quer uma lista de ingredientes para ser infeliz… bem, dê-me uns minutos para poder escrevê-los…»


Maria: «Obrigado, Doutor! Estou cansada da felicidade que vivo! Mas… não me faça perguntas! Concentre-se no que me vai escrever! Eu sabia que podia contar consigo!»


Passados uns minutos, entre um silêncio inquietante e a curiosidade pelo que estava a ser escrito, eis que o psicólogo lhe dá um papel com os tais ingredientes.


Psicólogo: «Maria, aqui tem. Deixo o que escrevi dentro deste envelope.»


Maria: «Mais uma vez, obrigado Doutor! Escusa de me dizer mais alguma coisa. Voltarei a contactá-lo, se precisar. Bom trabalho para si! Até um dia, se assim tiver de ser! Fique bem!»


A Maria saiu do gabinete, guardou o envelope na sua carteira e caminhou até à sua casa. Quando lá chegou, de forma serena, pegou no envelope e abriu-o, tirando de seguida o papel que o psicólogo lá deixou. Inspirou profundamente, expirou e direcionou o olhar para as letras bem desenhadas que o psicólogo deixou naquele pedaço de papel. Sozinha em casa, naquele momento, começou a ler em voz alta…


«Maria, respondendo ao seu pedido, vou ser muito direto e claro: dedique-se exclusivamente (ou muito próximo disso) ao trabalho, centrando-se apenas em si e não em nenhum colega desse contexto, deixando também de investir na família, em si própria, nas outras pessoas e contextos; perante os problemas que surgirem, onde quer que esteja, culpabilize-se a todo o momento e não encontre soluções para os mesmos… deixe-se estar e afunde-se nesses pensamentos e nos sentimentos e nas emoções aliadas; esqueça os relacionamentos sociais e amorosos e todo e qualquer espírito de entreajuda e de solidariedade… viva só para si, mas não se valorize… pense que os outros são sempre melhores, em todos os aspetos; agarre-se às tecnologias e navegue nelas horas a fio, sem olhar para mais nada, nem para ninguém; se alguém a interpelar, querendo iniciar uma conversa ou partilhar algo, ignore-a(o), afaste-se ou atropele o discurso e fale de si, muito de si, com uma narrativa de descrença e de negatividade ou pessimismo; acima de tudo, acredite que o seu destino é ser infeliz, mas, como se diz por aí, “agarra-se a isso com unhas e dentes”; por último, pedindo já desculpa pela ousadia e pela liberdade que estou a usar ao fugir ao seu pedido nesta parte final, quero dizer que gosto muito de si e acrescentar que sei da existência de muitas outras pessoas que a acham uma mulher maravilhosa, por ter sempre um sorriso na cara, por ser uma profissional de excelência, aliando a humanidade à humildade e ao profissionalismo, por ter sempre boas palavras para qualquer pessoa, por ser sempre um ombro amigo, por cuidar exemplarmente das pessoas que passam e das que ficam na sua vida, sabendo escutá-las como ninguém, e por saber cuidar tão bem de si. Por tudo isto e muito mais, admiram-na e são gratas pela inspiração que é para elas. Mais uma vez, desculpe se, de certa forma, nesta última parte fugi ao que me pediu. Apesar da infelicidade bater muitas vezes à porta do meu gabinete, é meu hábito olhar nos olhos das pessoas e ver o quão especial elas são. Diria que estou habituado a lidar com pessoas que têm a felicidade dentro delas, mesmo que bem lá no fundo ou com muitas nuvens a tapá-la, e procuro elevar o melhor delas. Maria, convido-a para uma próxima consulta. Quero que me apresente, com os detalhes que quiser e com as suas lentes, o melhor de si e da sua vida na relação com o mundo e com as outras pessoas. Se não vier por este pedido, apareça pela curiosidade… como sei tanto sobre si… Até breve, Maria!».


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