Outra vez? [a carta da Helena ao seu psicólogo]

Pedro, sendo meu psicólogo há muito tempo, conhecendo-me como ninguém me conhece, decidi escrever-lhe esta carta. Na era da tecnologia, onde tudo se faz através delas, quero voltar aos tempos antigos e escrever-lhe uma carta. Não só porque quero usar métodos menos comuns nos tempos modernos. Na verdade, começo a ganhar alguma aversão às tecnologias. Sabe bem a razão! É verdade, aconteceu outra vez! Tudo parecia bem encaminhado… mas ele mandou-me uma sms, agora mesmo. Só me apetece chorar! Sabe o que ele disse? “Querida, acho que as coisas não vão funcionar connosco. É melhor cada um ir para seu lado! Talvez a culpa seja minha, mas não dá mais!”. Acha normal? Este será o meu destino? Até ontem estava tudo bem, eu faço tudo por ele, sempre achei que ele fazia tudo por mim e já namoramos há quase um ano! Afinal, qual é o problema? No passado, o António disse-me que estávamos a avançar muito rapidamente e que não conseguia assumir esse compromisso, o João disse-me que estávamos numa fase difícil da vida dele e que não conseguia estar com ninguém, o Bernardo apaixonou-se pela Ju (a minha melhor amiga!)… e agora o Francisco diz-me isto?! Todos eles por sms! Todos eles a fugir! O problema só pode ser meu! É o meu destino? O que mais posso fazer? Não estarei destinada para ter um compromisso sério e que dure no tempo? Não poderei realizar os meus sonhos de ser feliz com alguém e de criar uma família? A idade está a passar e eu começo a perder a esperança! É verdade que não sou a mulher perfeita, mas aprendi consigo que não tenho de ser e acredito quando me diz, citando-o, «um homem vai amá-la pela pessoa que é, com todas as belas imperfeições que a caraterizam». Preciso da sua ajuda! Diga-me, honestamente, acha mesmo que posso ser feliz com alguém? Que alguém me vai amar de verdade? Eu pensava que com o Francisco seria para sempre, mas… bem, verdadeiramente, eu gostava que ele se tivesse enganado, arrependido e que me pedisse desculpa pela sms… acho que até sou capaz de fazer de conta que não enviou nada! Sim, sou capaz de perdoá-lo. O Pedro sabe o quanto amo o Francisco, mas ele já não me ama! Pensei que me amava! Mas tudo acabou! Estou confusa! Dê-me uma data e um horário para ir ter consigo, mas, por favor, não o faça por sms, nem por e-mail. Envie-me uma carta. Obrigado!


[ Mesmo com o que aconteceu agora, neste preciso momento, vou manter o que já escrevi e vou enviar a carta para si. Vai pensar que sou louca, mas confio em si. ]


Pedro, sinto que estou a escrever um novo capítulo a partir de agora. Nem imagina! Acabei de receber uma nova sms do Francisco! Ele disse o seguinte:


«Desculpa, querida! Mandei-te uma mensagem estúpida! Talvez fruto da minha insegurança! Talvez influenciado pelos meus colegas que todos os dias me dizem «não tens estofo para a tua namorada! Ela é muito melhor do que tu!». Talvez porque gosto tanto de ti que tenho imenso medo de te perder! Talvez porque nunca tenha sido feliz e agora desconfio da felicidade a dois! Talvez porque a Priscila, a namorada do Osório, insiste em me dizer que tu não és mulher para mim… Perdoas a minha estupidez? Quero-te muito! Já não sei viver sem ti! Está na hora de vivermos sem as opiniões dos outros, principalmente daqueles que nada de bom nos trazem!».


Eu vou perdoá-lo! Eu vou esquecer o que aconteceu! Eu acredito nele! Eu acredito no nosso amor! Eu sei que ele não é perfeito e consigo admirá-lo assim, tal e qual como ele é. Esta relação não é igual às outras! Vou dar o meu melhor nesta relação, procurando seguir especialmente aquele conselho que me deu na última consulta: «Cultive um amor-próprio e levo-o para as suas relações. Semeie o amor pelos outros, levando-o ao coração deles. Receba o amor dos outros e instale-o dentro de si.». A minha caminhada não está a ser nada fácil! O Pedro sabe disso! Mas estou na luta, como lhe costumo dizer! Deve achar-me louca! Sou assim! Posso ser louca, mas não desisto de ser uma doida feliz. Talvez instável, talvez inquieta, talvez apenas uma mulher que quer ser feliz e construir uma família. O Francisco e eu conseguiremos vencer esta longa caminhada. Eu acredito! Eu vou continuar a trabalhar para conquistar o que me faz feliz. Contudo, quero na mesma estar consigo. Pedro, envie-me uma sms com dia e hora. Não precisa de ser por carta. Aí estarei! Até breve! Obrigado!


Um beijo.

Helena

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