Aquilo que eu quero é...

Excerto de um momento* a três, quando dois deles buscam ajuda para o seu relacionamento e o terceiro procura identificar os problemas, compreender os pontos de vista e ajudá-los.


Marta: Sabe, Doutor, aquilo que eu quero é que ele esteja sempre comigo, que me ouça a todo o momento, que se dedique mais às tarefas de casa e que as faça como devem ser feitas, que me dê mais apoio no cuidado dos filhos, que deixe de ir com os amiguinhos ao futebol à sexta-feira, que me elogie, que deixe de agir como a mãe dele (se soubesse como a família dele se comporta!), que cuide mais da sua alimentação porque só come porcarias, que me atenda as chamadas do telemóvel, que responda rapidamente às mensagens, que deixe de falar com as amigas interesseiras e desinteressantes, que não se deixe influenciar pelas visões retrógradas dos amigos, que aprenda a ter maneiras e a ser um homem a sério, que esteja atento ao civismo e sentido ético dos meus pais (para que saiba o que é normal), que olhe só para mim e não para todos os «rabos de saia», que valorize as minhas ideias, pois são muito mais realistas e equilibradas do que as dele! Enfim, Doutor, poderia enumerar muitas outras coisas, mas de certeza que já percebeu o grau de egoísmo dele e o quanto deve aprender para que a nossa relação dê certo! Só pensa nele! É por isso que estou aqui! Diga-lhe o quanto estou certa...


Psicólogo / Terapeuta de Casal: Bem, Fernando, o que tem a dizer?


Fernando: Tanta coisa, Doutor! Até agora estive aqui calado, mas agora vais ouvir-me até ao fim, Marta Rebelo! Deves pensar que o Doutor ainda não percebeu a tua altivez, a arrogância sem fim, a tua insensibilidade e o teu desfasamento da realidade! Doutor, eu já lhe disse, vezes sem conta, o quanto ela pode aprender comigo. Tenho muito mais experiência e maturidade do que ela, sou mais velho 5 anos e tenho uma visão muito mais sensata do mundo das relações. Eu sei perfeitamente o que precisamos! Tu estás completamente errada! Doutor, aquilo que eu quero é que ela passe menos tempo ou tempo nenhum ao telefone com as amigas de terceira categoria, que consiga ver que os meus pais, esses sim, são o exemplo vivo do verdadeiro saber-estar com os outros (ao contrário da família dela, que é arrogante e fria como ela… tem a quem sair!), que a melhor forma de educar os nossos filhos é seguindo o exemplo dos meus avós maternos (educaram 12 filhos como ninguém!), em vez de andar a ler livros de boas práticas parentais e afins, que o pilates e as outras coisinhas lá do ginásio não a vão ajudar em nada, que os amiguinhos e coleguinhas do trabalho e do ginásio só querem aproveitar-se dela (e depois dar-lhe um chuto, quando não precisarem!). Doutor, em boa verdade, o segredo da nossa relação está nela, porque se ela tiver a inteligência de seguir os meus conselhos, vai chegar bem longe! Se ela sair do seu trono de rainha… mas, sabe, ela não quer saber! Ela pensa que sabe tudo! É isto, Doutor, fico por aqui, embora tivesse muito mais para dizer...

Psicólogo / Terapeuta de Casal: Marta e Fernando, ao olharem para vocês próprios, cada um para dentro de si mesmo, o que consideram poderem mudar em prol da relação?


Fernando e Marta [em uníssono]: Quem? Eu?


*Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

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