O que ele(a) quer mais?

February 22, 2019

«Dou-lhe tudo! O que ele(a) quer mais?». Quantas vezes já ouviu esta expressão nas relações entre pais e filhos? Quantas vezes já usou esta expressão na relação com o seu filho ou com a sua filha? No âmbito profissional, nos processos de intervenção psicológica que vou guiando, vejo e escuto muitos pais a direcionarem estas palavras aos seus filhos quando eles também estão presentes ou, quando estes últimos não estão presentes, direcionadas a mim falando sobre os filhos. Quando tal acontece, em contexto de consulta, opto por um pequeno silêncio (estratégico) e de seguida coloco a seguinte questão: «Para si, o que é o ‘tudo’ que lhe dá?». Segue-se um pequeno silêncio dos pais (não estratégico, mas essencial) e uma resposta que normalmente se centra em «comida na mesa, roupa e pagamento dos custos associados à escola». Menos vezes do que seria desejável, pela minha experiência profissional, entram expressões como «afeto», «carinho», «brincadeira», «escuta», «respeito pela diferente opinião», «admiração», «elogio», «apoio emocional», «abraço», «tolerância», «respeito pelas suas decisões», «presença de qualidade», entre tantas outras que poderia enumerar. O «tudo», afinal, é bastante redutor e poucas vezes considera os laços relacionais e emocionais. Já pensou que o seu «tudo» pode não preencher o «todo» das necessidades, desejos e direitos dos seus filhos? Já pensou que se optar por se fechar no seu «tudo», mesmo que com a melhor das intenções, está a esquecer-se de se abrir ao mundo dos seus filhos e a impulsionar o fecho das portas de acesso à vida deles? Já pensou na relação que está a criar com os seus filhos e no impacto das suas ações no desenvolvimento deles?

 

As relações interpessoais estão carregadas de dimensões e de novelos de complexidade. Na sociedade atual, os relacionamentos entre pais e filhos estão a enfrentar desafios bastante exigentes. A falta de tempo para escutar o outro, a falta de prática em olhar olhos nos olhos mais do que 5 segundos, a comunicação que não se baseia na assertividade e no respeito pelas suas regras básicas (por exemplo, a consideração de um emissor e de um recetor e da troca de papéis), as mensagens telegráficas que se passam nas conversas (quando há tempo para elas), a inexistência de autocrítica, a facilidade e a elevada frequência quanto à emissão de juízos de valor, a cristalização de comportamentos de elevado grau de ineficácia na construção da relação, a desorganização diária nas rotinas mais comuns, a dificuldade em gerir o sistema familiar, a não procura de conhecimentos e ferramentas para um melhor exercício da parentalidade e para uma maior eficácia dentro dos relacionamentos interpessoais, o medo e/ou desconforto em falar de sexualidade, morte e emoções, entre tantos outros exemplos que poderia dar, comprometem bons relacionamentos e o desenvolvimento harmonioso de cada pessoa. Pare um pouco para pensar e ponha «mãos à obra»! Hoje, por exemplo, pode olhar nos olhos dos seus filhos e lhes dizer o quanto os ama, acompanhado de um abraço aconchegante. Como gesto de continuidade à sugestão anterior, talvez consiga arranjar um programa de família exclusivamente centrado no vosso sistema – o sistema familiar – e descobrir o que os seus filhos já sabem fazer, tendo grandes oportunidades para elogiá-los e sentir-se contente pelas suas capacidades extraordinárias. Desta forma, pode crer, está a tornar o seu «tudo» bem mais próximo das necessidades próprias das relações de amor. E, mesmo com o «tudo», se um dia se questionar sobre o que pode dar mais, lembre-se que pode sempre dar mais um pouco e, consequentemente, receberá mais também. Não se esqueça, porém, que esse «mais» nem sempre é «mais do mesmo»! Esse «mais» é, muitas vezes, o que ainda não deu ou o que tem dado pouco.     

 

 

 

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