Consegues esperar de mim o que tenho para te dar?

[Partilho contigo uma história que talvez tenha acontecido neste mundo. Talvez. Qualquer semelhança com a realidade é, com toda a certeza, uma feliz coincidência e um motivo de regozijo pelo teu cruzamento com ela ou pelo teu envolvimento mais próximo com a mesma.]


O Fábio e o Filipe iniciaram a sua amizade há 16 anos. No dia em que se conheceram, após umas belas horas de conversa, o Filipe disse ao Fábio o seguinte: «Consegues esperar de mim o que tenho para te dar?». O Fábio, surpreendido com a questão, respondeu ao Filipe devolvendo esse mesmo questionamento: «Tu consegues esperar de mim o que tenho para te dar?». O Filipe não hesitou na resposta. Deu um «sim» e um sorriso. O Fábio retribuiu a positividade da resposta. Deu um «sim» e um abraço. A partir daí começaram a desenvolver uma relação de amizade. Um relacionamento diferente de qualquer outro. Uma amizade muito centrada na abertura ao mundo do outro e na escuta ativa das sonoridades do mundo alheio, retirando da equação do relacionamento interpessoal a excessividade do «eu acima de tudo». Entraram para a relação sem uma indiferença face ao que está para além da própria individualidade. A entrada de ambos foi motivada pelo conhecimento do outro. De forma simples, houve espaço e tempo para os dois. Cada vez mais e mais. Aos poucos, dia após dia, foram conhecendo, por exemplo, os valores e interesses do outro, as características de cada um e as suas histórias. Viveram cada momento de forma livre, sem qualquer tipo de julgamento. Quatro anos depois do primeiro contacto entre ambos, num fim de tarde de outono, especialmente bonito, fundamentalmente pelo sítio em que se encontravam (um jardim lindíssimo), o Fábio declarou o seu amor ao Filipe. Um amor que excedia a amizade. O Filipe de imediato perguntou ao Fábio: «Consegues namorar comigo e esperares de mim o que tenho para te dar?». O Fábio sorriu alegremente e chorou de contentamento, deixando implícita a sua resposta. Um «sim», claro. Foi nesse dia que uma bela história de amor começou (ou deu um novo e desejado passo para cada um). Uma história com contornos únicos e inspiradores. O Filipe sempre me diz, quando nos encontramos, que nunca viveu na vida algo tão especial. O Filipe e o Fábio têm uma admiração recíproca (nas suas diferenças). Nenhum deles almeja a perfeição de cada um, nem uma relação perfeita. Acham-se suficientes, mas não deixam de se atualizarem e se adaptarem aos desafios que a vida lhes coloca. Gostam da sua forma própria de ser e de estar, mas não têm medo da mudança. Aliás, nem sequer fogem da mudança. Eles vivem a relação e a vida com uma leveza inspiradora. Aprenderam, desde o início, a respeitar uma regra essencial: esperar do outro o que ele tem para dar. Nenhum cristalizou numa maneira de ser e de estar, nem impuseram a sua personalidade de forma arrogante e intransigente. Ambos foram mudando na linha do tempo, respeitando essa mudança, crescendo com a relação, aprimorando as suas vivências (ao encontro dos interesses mútuos), admirando o outro, e procurando manter a harmonia na relação. À semelhança de qualquer casal, têm momentos maravilhosos e também conflitos – tão essenciais às mudanças e adaptações exigidas – e dias bons e maus – excelentes oportunidades para se refletir sobre os dias que se seguem. Só de perto é que se percebe a cumplicidade inspiradora que reina na sua relação. Recebem muitos elogios das pessoas mais próximas da vida deles, sobretudo pela forma como têm alimentado a sua relação. Perante esses elogios, eles costumam dizer que não são mais do que ninguém, que não são nenhum modelo de casal, que apenas são duas pessoas que se amam e que, para além de se respeitarem, admiram-se imenso. O Fábio é da área das ciências exatas e o Filipe das artes. São muito bem-sucedidos nas suas profissões e têm o hábito de estarem presentes nos grandes eventos de cada um. Não marcam apenas presença. Também a este nível encantam-se com a performance de cada um, admiram a dedicação e a autoconfiança nos seus domínios de ação e gostam de observar as expressões faciais de ambos nos momentos de interação positiva com as pessoas que acompanham e que gostam do seu trabalho. «É aquela mágica de estar ao longe e ver a pessoa amada a brilhar à sua maneira», disse-me uma vez o Filipe. [Nota: Deveríamos todos saber que estes momentos, quando vividos com autenticidade, são afrodisíacos para um relacionamento amoroso.] Com tudo o que já foi dito, pode parecer que eles só vivem um para o outro. Não! Eles têm uma vida social, em termos individuais, muito rica, ou seja, bem alimentam os seus espaços individuais com outras pessoas especiais (para além de tudo o que incluem no seu espaço e tempo consigo próprios). Há um respeito gigante por estes espaços, dado haver muito para dar aos outros. A singularidade do Fábio e do Filipe, tal como a de cada um de nós, também deve ser partilhada com amigos, amigas, familiares, colegas, entre outras pessoas. A vivência com outras pessoas em nada dificulta ou impossibilita o bom relacionamento de ambos e a construção da sua intimidade. Pelo contrário. O Fábio e o Filipe têm uma relação amorosa há 12 anos e sentem-se muito bem dentro da mesma.


E tu? Num relacionamento amoroso, estando dentro dele ou imaginando a entrada no mesmo, esperas da outra pessoa o que procuras (com expectativas e exigências muito claras) ou o que ela tem para te dar (com curiosidade e abertura à diferença)?

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