A mente comanda a vida

Calcei as sapatilhas para correr. Foi um dia ligeiramente diferente. Disse para mim próprio que caminharia até ao ponto x, daí correria até ao ponto y, parava para me hidratar, num ponto conhecido, e voltaria até à casa de partida a correr. Não era habitual caminhar até ao ponto x. Normalmente corria até lá. Por esse hábito, a mente dizia-me de minuto a minuto (ou talvez menos) para correr. O hábito instalado, a vontade do corpo, e talvez a necessidade da alma. Resisti. Tinha traçado um objetivo e queria mesmo cumpri-lo. Tive uma pequena luta (ou grande – depende do ponto de vista) com a imposição do hábito e o prazer que é para mim correr, mais do que caminhar. Contrariei. Quase a chegar ao ponto x, começaram a surgir pensamentos para me demoverem do rigor do primeiro objetivo estabelecido: «Então, qual é o mal de começares agora a correr? Já estás perto [do ponto x].». Mais uma vez, bloqueei essa vontade. Parece fácil, mas acreditem que não é. O corpo estava agitado, queria mais, queria o habitual. Cheguei ao ponto x! Senti-me orgulhoso. Estava contente e mais forte. Consegui! O desafio ainda só estava a começar. Segue-se o habitual: correr. Porém, a distância do ponto x ao ponto y não era a habitual. Era uma distância bem mais longa. Os primeiros quilómetros foram feitos com um grande sorriso, mas chega uma altura em que a tua mente diz «É melhor caminhares um pouco. Estás para além da marca, por isso se parares não tem mal. Aliás, até estás com algum cansaço. Pensa bem!». Mais uma luta. Os pensamentos a quererem manipular-me. Queriam que parasse. Estavam a desafiar-me. Eu não queria ceder. Estava focado no meu objetivo. Estava inflexível. Havia cansaço? Sim. O mais fácil era mesmo parar, mas eu não queria o mais fácil. Não quer dizer que quisesse o mais difícil. Queria apenas cumprir com os meus objetivos. Acho mesmo que queria ganhar ao “adversário” que estava dentro de mim. Assim, sabendo da exigência deste caminho, decidi produzir pensamentos fortes para a concretização dos meus objetivos. Não me irritei com os pensamentos desmobilizadores, pois, em boa verdade, eles estavam a tentar cumprir com a sua missão, noutros tempos também minha. Acontece que naquele momento a minha missão era outra. Eu sabia que ninguém (nem mesmo eu próprio!) me demoveria do meu propósito. Segui em frente e, para me desafiar ainda mais, produzi pensamentos arrojados: «Estás cansado? Então, vais aumentar a passada, vais acelerar, vais impor um ritmo mais forte [até ao ponto y].». Os pensamentos alojados nos percursos e ritmos habituais ficaram surpreendidos! Todavia, não desistiram da sua missão. De nada valeu. Consegui impor a força dos pensamentos de superação e ainda recuperei memórias que trouxeram evidências de «Tu consegues!». Assim foi. Cheguei ao ponto y. Cansado? Um pouco. Mais forte do que nunca? Sim, sem dúvida! Mais um objetivo cumprido. Parei. Escassos minutos. Um ponto conhecido onde tive a oportunidade de me hidratar. Depois, tendo feito esta pequena pausa, o novo objetivo já estava traçado: «Vais fazer o percurso inverso e todo a correr até à casa de partida!». Nessa altura eis que outros pensamentos apareceram… «Vais mesmo fazer tudo a correr? E se fizeres uma parte inicial do percurso a caminhar?». Estava difícil! Neste dia a minha mente (ou parte dela) não cedia a pressões nem a jogos psicológicos. Sabia bem que esses primeiros metros a caminhar seria uma vitória para os pensamentos que queriam algo diferente das metas que tinha traçado. Vieram com falinhas mansas para ver se eu quebrava. Não! Nem pensar! Já me tinha decidido. Vou correr até à casa de partida. Saí disparado. Convicto. Determinado. Consciente que o trabalho ia ser duro, mas realisticamente conhecedor das minhas capacidades. Eis que veio o jogo sujo… «Para que serve todo esse esforço! Vais ganhar alguma taça? Se parares, ninguém saberá!». É daquelas alturas em que podes usar uma frase feita e dizes: «O que tu queres sei eu!». E até te ris. Segues na tua cadência, ciente do trajeto e da tua meta. Certezas de conseguir não tinha, mas estava profundamente determinado. O prazer da superação começou a chegar com mais intensidade, o meu corpo parece que se tornou mais leve, a mente mais elástica e todo o tipo de pensamentos a conviver lado a lado, aceitando a sua diferença. Antes disso, ainda surgiu um pensamento que me pareceu uma última cartada, pela dificuldade em impor o hábito: «Está na hora de parares! Não dá mais! Respeita o teu corpo!». Confesso que o ouvi muito baixinho, tanto que depois ele talvez tenha adormecido ou «passou pelas brasas». Retomando: estava a chegar à meta, a minha, e já não tinha dúvidas. Lá cheguei! Consegui! Fiquei contente. Não propriamente ao ponto de fazer uma festa. Sei bem que todos os dias são diferentes e que nem sempre conseguimos atingir o que queremos, mesmo que realisticamente definidas as metas. Há que ser humilde. Há que perceber que todos os dias são diferentes e em todos eles temos de tentar chegar às nossas metas. Uns dias perdemos e aprendemos uma lição. Noutros dias ganhamos e aprendemos uma lição. Já perdi. E gosto de saber perder. Faz-me, por exemplo, ser conhecedor de alguns limites meus. Já ganhei. E gosto de saber ganhar. Faz-me, por exemplo, ser conhecedor de alguns limites que defini mal para mim próprio. Para isso, convém saber que a mente comanda a vida, mas tu podes ser o comandante. Um bom comandante sabe que o trabalho para a superação dos desafios é diário. Queres uma dica? Aprende todos os dias! Supera-te todos os dias! Ensina aos mais novos essa lição e sê um modelo. Quem é que te disse que uma corrida é só uma corrida? Tudo aquilo que fazes no teu dia-a-dia deve ter uma ligação ao que és, ao que foste, ao que queres ser e ao que consegues fazer. Também não te esqueças que os pensamentos que podes rotular de “maus” podem ser desafios que precisas para te pores à prova. Acredita que não estou nada chateado com os pensamentos limitadores que surgiram face aos objetivos que tinha traçado. Será que faria o que fiz e aprendia a mesma lição se eles não estivessem lá?



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