O diário de uma viagem solitária com destino incerto

1/3/2021 – 9h30

Parti para esta viagem sem saber que ia fazê-la. Entrei no comboio e ele parece estar chateado comigo. Avança sem parar. Próxima paragem? Não sei. Não me dizem. Apenas sei que tenho de cá estar. Talvez ele não pare ou quando parar será num destino desconhecido. O desconhecido assusta-me. Felizmente, tenho o meu telemóvel comigo e com ele estou em contacto com outras pessoas. Elas também estão numa viagem para um destino incerto. Poderia dizer que “estamos todos no mesmo barco”, mas aqui aplica-se mais no mesmo comboio. Mesmo assim, estaria a ser imprecisa porque não estamos no mesmo comboio. Cada qual está no seu. Há lágrimas e palavras partilhadas e outras escondidas (por vezes, até de mim própria). Há uma viagem para um destino incerto. Muitos de nós até podemos parar no mesmo sítio, mas cada qual está a fazer a sua viagem. Estou em sofrimento. Está a ser muito difícil. Algumas pessoas dizem-me que tenho de aguentar, mas elas não sabem o que é aguentar o que estou a viver. Elas não estão a fazer a minha viagem. Ainda ontem me passei! Inconformada com esta situação, talvez com medo que o comboio descarrile, pus-me aos berros e a chorar. Sinto-me sozinha e impotente. A solidão pesa. A solidão magoa. A solidão fere profundamente.


2/3/2021 – 9h

Hoje, especialmente neste preciso momento, caiu uma esperança em mim que me fez sorrir. Primeiro pensei que não poderia sorrir com tudo o que está a acontecer, mas a verdade é que me senti bem. Eu posso sorrir. Eu quero sorrir. Sabes o que vou fazer? Vou fechar-te, meu querido diário. É por uma boa causa. Não fiques triste. Vou ligar a uma pessoa especial e dizer-lhe o quanto gosto dela. Vou sorrir também. Talvez lhe diga que estou a sorrir. Talvez lhe peça para ela sorrir também. Talvez este gesto a ajude a fazer uma boa viagem. Estou ansiosa por falar com ela. Talvez me ajude a sorrir ainda mais. Talvez a próxima paragem esteja próxima para podermos apreciá-la e presenteá-la com um sorriso. Sabes, meu estimado diário, a ligação aos outros torna a nossa vida mais leve, acaricia a nossa alma e instala um bem-estar profundamente belo dentro de nós. Não tenho de fazer esta viagem sozinha...

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