O que tenho mais certo é a incerteza (de quem sou)


A incerteza e a diversidade


O que tenho mais certo é a incerteza. A própria incerteza de quem sou. De consulta em consulta já não sou o mesmo. Não é só comigo que este fenómeno ocorre. Se quem me procura já esteve comigo, podes crer, na consulta seguinte já não é a mesma pessoa. Quem marca o início de um processo de mudança, podes crer, já não é a mesma pessoa que era antes da marcação. Há mudanças a ocorrer, por mais que não queiramos. É por isso que é preciso coragem para aprender. Aprender com os outros. Eu acredito que as pessoas que me procuram, de alguma forma, aprendem comigo. Pouco, claramente. Diria que, muitas vezes, o suficiente para grandes mudanças na sua vida. Eu sei que aprendo imenso com os outros. Aprendo a questionar os meus julgamentos no dia-a-dia. Aprendo a parar mais vezes para escutar o que têm para me dizer. Aprendo que há mais dúvidas do que certezas, percebendo que mais vale questionar («Como estás?») do que afirmar («Estás com bom aspeto! Deves estar ótimo!»). Aprendo que os outros não pensam como eu penso, não sentem como eu sinto, não se comportam igual a mim. Isso é bom. Dessa forma, aprendo a viver com a diversidade.



A humildade e a mudança


Tenho de ser humilde o suficiente para aceitar o mundo dos outros, mesmo que seja significativamente diferente do meu. Depois, num exercício ousado, procuro admirar esse mundo. Aliás, há momentos em que digo, num silêncio essencial, em direção ao outro: «Uau! É incrível o que consegue(s) fazer! É maravilhoso assistir na primeira fila ao que é(s)!». É que não se pense que o psicólogo é o mais capaz e mais inteligente no espaço de consulta e na vida. As pessoas quando se superam ou quando têm consciência do que realmente são, arriscam-se a voarem bem mais alto do que eu, são bem mais capazes e inteligentes do que eu, são inspiradoras para mim. E, chegando a hora, deixo-as voar, querendo muito que cheguem onde nunca chegaram, ou seja, que alcancem pontos desejados de felicidade. Sabem que lá chegarão. Já fizeram tanto e são tão capazes, embora diferentes a cada instante, que não dá como não chegarem longe, bem longe.



A confiança e as histórias de vida


Um dia disseram-me assim: «Ser psicólogo deve ser ingrato. As pessoas vão ter consigo mal, saem bem e depois não querem saber de si. Não é?». Discordo. As pessoas, acima de tudo, confiam em mim. E nessa relação de confiança há algo que fica. Perto, bem perto. As histórias, por exemplo. Essas ficam. E mexem-se dentro de mim com ritmos diferentes e com cores distintas. Um «sei lá» de emoções. Procuro decifrá-las, organizá-las e arrumá-las nas devidas gavetas. Aí volto a encontrar-me comigo mesmo. Mas já não sou o mesmo. Batem à porta novamente e encontro-me com alguém, com novas histórias. Tenho de estar pronto para mais uma mudança. Já não serei o mesmo depois desse momento. E espero que a mudança dos outros seja aquela que, por mais que não tenham pensado nela, vá ao encontro do seu bem-estar. Nem sempre se encontra o que se procura, mas o mais importante é mesmo encontrar o que nos faz bem. Seja isso a felicidade que tanto se fala! E se encontrarem esse caminho belo, acreditem, não preciso de mais. Já deixaram muito. Deixaram vulnerabilidade, exposição, confiança, coragem, superação, e tanto mais. Por isso, a partida é inevitável e desejável.



O regozijo e a gratidão


Sou um privilegiado por acolher tantas histórias de vida, por confiarem em mim, por me ajudarem a crescer (com a dança da alegria e da tristeza, e de tantas outras emoções que me tornam uma pessoa de corpo e alma). O que tenho mais certo em todas estas viagens ao interior de cada pessoa, e de mim próprio, é a incerteza de quem sou e a gratidão por me tornarem o que vou sendo dia-a-dia e me desafiando a pensar sobre isso mesmo.



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